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Enxaqueca além da dor de cabeça: 6 condições que costumam acompanhar a doença

O corpo em alerta: entenda como a enxaqueca se conecta ao sono, bruxismo, aumento da frequência urinária, metabolismo e sentidos como visão e audição

Muito além da dor de cabeça, a enxaqueca é uma condição neurológica complexa que pode se manifestar em diferentes sistemas do corpo, com sintomas que vão de alterações urinárias e sensoriais a distúrbios do sono, bruxismo e até mudanças metabólicas associadas à composição corporal. “A enxaqueca é uma doença neurológica que afeta o sistema nervoso como um todo e impacta a vida das pessoas em diversos aspectos. Por isso, sintomas que aparentemente parecem não ter relação com enxaqueca têm, na verdade, uma prevalência grande em pacientes com a doença”, explica o Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Abaixo, o médico explica 6 condições que podem acompanhar a enxaqueca:

Aumento da frequência urinária – Esse sintoma, segundo o Dr. Tiago, pode surgir durante todas as fases de crise, mas em pacientes com a doença crônica pode apresentar essa característica de forma constante. “Mesmo sem dor de cabeça intensa, o sistema nervoso autônomo pode estar envolvido e gerar sintomas urinários, geralmente de polaciúria, caracterizado por aumento do número de micções com diminuição do volume da urina, ou seja, urinar pouca quantidade muitas vezes ao dia”, explica o neurologista. O médico apresentou em 2025 uma pesquisa no Congresso Internacional de Cefaleia que mostra que 70,4% (569 pessoas) de um universo de 808 pacientes brasileiros relataram sofrer com aumento da frequência urinária. “O aumento da frequência urinária pode servir como sinal preditivo de uma crise de enxaqueca, pródromo (primeira fase da enxaqueca) em muitos pacientes. Isso está cada vez mais relacionado a um sintoma da própria doença. Em paciente com a doença crônica, ele aparece independente do paciente estar apresentando uma crise de dor intensa”, explica o Dr. Tiago de Paula. Segundo o médico, tanto a enxaqueca quanto a bexiga hiperativa estão ligadas a uma disfunção do sistema nervoso autônomo, que regula funções involuntárias do corpo. “É por isso que, durante crises de enxaqueca, alterações na comunicação cerebral podem causar um aumento na sensibilidade das vias nervosas que controlam a bexiga, resultando em urgência urinária ou aumento da frequência. A disfunção do sistema nervoso autônomo é um mecanismo reconhecido em pacientes com enxaqueca, podendo afetar controle da bexiga, motilidade intestinal, frequência cardíaca, entre outros. A sensibilidade aumentada das vias neurais pode, de fato, levar a sintomas como urgência ou aumento da frequência urinária”, comenta o médico.

Distúrbios visuais e auditivos – Para uma parcela importante de pacientes, os primeiros, e por vezes os únicos, sinais são alterações visuais (luzes, escotomas, distorções) ou auditivas (hipersensibilidade ao som, zumbido, sensação de pressão). “Essas manifestações podem confundir pacientes e médicos, levando a exames neurológicos, oftalmológicos ou otorrinolaringológicos repetidos antes do diagnóstico de enxaqueca. Embora seja frequentemente associada a dores de cabeça intensas, nem todas as manifestações dessa doença incluem esse sintoma. Um exemplo notável é a enxaqueca vestibular, na qual os pacientes podem experimentar episódios de tontura e vertigem sem a presença concomitante da dor de cabeça. Ainda existem quadros como a da enxaqueca silenciosa e enxaqueca com aura sem dor de cabeça”, explica o neurologista. O Dr. Tiago destaca que, na aura visual, os pacientes enxergam flashes de luz, linhas em ziguezague que crescem no campo visual, manchas escuras (escotomas), distorções no tamanho/forma dos objetos (metamorfopsias). “Essas alterações costumam evoluir em minutos e durar normalmente até uma hora”, explica. Distúrbios auditivos e vestibulares são sentidos como uma sensibilidade extrema a ruídos (fonofobia), sensação de que sons estão “mais altos” ou “distorcidos” (hiperacusia), zumbido, sensação de ouvido tampado/pressão. “Na enxaqueca vestibular, o paciente descreve vertigem intensa, instabilidade ou sensação de deslocamento espacial, por períodos que variam de segundos a dias”, comenta o neurologista.

Bruxismo – O bruxismo de vigília, também conhecido como bruxismo diurno, já foi associado a transtornos como ansiedade, mas o hábito de apertar ou ranger os dentes enquanto se está acordado também tem relação com a enxaqueca crônica. “Diferente do bruxismo do sono, que ocorre durante o sono, o bruxismo de vigília pode ocorrer em momentos de estresse, concentração intensa ou até mesmo de forma independente. Muitas vezes, esse ranger dos dentes se dá de forma inconsciente”, diz o médico. Em 2025, o médico apresentou um estudo que mostrou que de 237 pacientes com enxaqueca, 185 (ou 78% do total) apresentam maior atividade fásica de masseter com análise por eletromiografia. “O diagnóstico de bruxismo inclui resultados do exame que apresentam atividade fásica do músculo masseter maior que 0,2 mV, mas o valor médio desses pacientes foi de 1,23 mV, o que configura uma maior ativação dos músculos da mastigação, identificando padrões anormais de contração muscular associados ao bruxismo”, explica. “O bruxismo em vigília é entendido como uma manifestação de hiperatividade do ramo motor da divisão mandibular (V3) do nervo trigêmeo, levando à contração involuntária da placa motora. Há uma sobreposição nos mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca e do bruxismo, incluindo hiperexcitabilidade cortical, sensibilização central e ativação do sistema trigeminovascular”, diz o médico.

Distúrbios do sono – Dormir mal é quase uma rotina para pacientes com a doença, já que sono e enxaqueca possuem uma relação profunda e intrincada. “Isso porque os mecanismos cerebrais que controlam a dor e o sono estão interligados. Por exemplo, o hipotálamo, estrutura responsável por regular o ciclo sono-vigília, também tem participação nas crises de enxaqueca, modulando sinais de dor e a liberação de hormônios. Já neurotransmissores como serotonina e melatonina influenciam tanto o controle do sono quanto a sensibilidade à dor”, explica o neurologista. “Assim como a falta de sono, dormir em excesso também pode piorar as crises”, acrescenta. O médico explica que, em muitos pacientes, as crises de enxaqueca prejudicam severamente as noites de sono. “As dores e a ansiedade geradas pela enxaqueca causam insônia e despertares frequentes durante a noite. Além disso, durante a crise ocorrem alterações químicas no cérebro, com mudanças nos níveis de neurotransmissores, assim quebrando o padrão normal do sono e prejudicando a recuperação”, diz o neurologista. “E dormir pouco eleva a excitabilidade do sistema nervoso. E sabemos que enxaqueca é uma doença relacionada à hiperexcitabilidade cerebral. Então dormir mal é um gatilho para as crises, que também são mais fortes, pois a privação do sono aumenta a sensibilidade à dor”, acrescenta o médico.

Distúrbios de humor – O médico explica que a frequência de depressão e transtorno de ansiedade em pacientes com enxaqueca é alta. “Hoje há a discussão se os distúrbios de humor são de fato um sintoma da própria doença, que é o que eu acredito, mas ainda é uma discussão. Todos os pacientes têm, por exemplo, ansiedade; claro que varia a intensidade e o grau dessa alteração de humor, mas é muito prevalente. Além disso, há muitos casos também de humor mais deprimido. Os trabalhos científicos mostram que a frequência de sintomas depressivos é aumentada nos pacientes com enxaqueca e o desbalanço de neurotransmissores que ocorre na doença pode contribuir. O cérebro do paciente com enxaqueca crônica provoca sintomas como fadiga e colabora para o processo de sintomas de apatia e depressão. Isso infelizmente acontece com muita frequência, principalmente em um paciente não tratado que só usa remédios de crise no momento de dor”, destaca o Dr. Tiago. “Então tratar enxaqueca de forma correta pode ser um fator protetor para o humor. Na prática, vemos muito isso: quando o paciente está com a doença controlada, o humor também tende a ficar mais estável”, acrescenta.

Problemas metabólicos e lipedema – Um estudo alemão, com 209 pacientes, identificou que (22,5%) das pacientes com lipedema apresentam enxaqueca. Já um estudo espanhol mostrou que essa associação pode ser até maior, com 43,1% das pacientes com lipedema apresentando também enxaqueca como comorbidade. “Essa relação não é por acaso. Tanto a enxaqueca quanto o lipedema compartilham mecanismos hormonais e inflamatórios importantes, especialmente relacionados ao estrogênio”, explica o Dr. Tiago de Paula. O lipedema é uma doença caracterizada por acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em membros inferiores, associado a dor e inflamação crônica. “Já a enxaqueca envolve um estado de hiperexcitabilidade cerebral e também processos inflamatórios. Além disso, pacientes com enxaqueca tendem a apresentar alterações na composição corporal, com maior percentual de gordura e menor massa magra, o que pode favorecer condições metabólicas associadas, como o lipedema”, diz o neurologista. Segundo o médico, o fator hormonal ajuda a explicar por que ambas as condições são mais prevalentes em mulheres. “Os hormônios femininos modulam tanto a sensibilidade à dor quanto o metabolismo do tecido adiposo. Isso cria um terreno comum entre as duas doenças, embora uma não seja causa direta da outra. Mas tratar a enxaqueca pode ajudar a paciente a ter uma rotina de exercícios e qualidade de vida que podem ajudar no controle do lipedema”, completa.

Por fim, o médico diz que é fundamental a avaliação médica especializada para um tratamento correto da enxaqueca. “Geralmente, o tratamento é direcionado à enxaqueca. Hoje, temos opções com a toxina botulínica, realizada no nervo, que ajuda a controlar a enxaqueca ou mesmo os medicamentos monoclonais Anti-CGRPs, que chegaram ao Brasil em 2019 e são os primeiros medicamentos feitos do início ao fim pensando em enxaqueca. Esse tratamento é totalmente seguro e deve ser feito com acompanhamento médico. Ao controlar as crises, os sintomas associados tendem a diminuir. A avaliação individual é essencial”, finaliza o médico.

FONTE: *DR. TIAGO DE PAULA: Médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e atualmente integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP). Pesquisador sobre dores de cabeça, o médico também é palestrante em congressos nacionais e internacionais e autor de artigos, capítulos, livros e publicações científicas. CRMSP 168999 | RQE 18111 | Instagram: @drtiagodepaula